Em entrevista por telefone a Geek Vibes Nation, Daniel Sharman fala mais sobre Cursed e seu personagem na série. Confira o áudio e a entrevista traduzida:

Escute o áudio:


Entrevistador: Oi Daniel, o que te atraiu inicialmente ao personagem do Monge Choroso?

Daniel Sharman: Bem, algumas coisas. Tom [Wheeler] e eu nos sentamos e conversamos sobre quem [o Monge Choroso] era, qual era sua história e como ele se tornou a pessoa que se tornou e eu me interessei muito por isto. Eu fiquei muito interessado em contar a história de alguém sem usar palavras, sabe? E ter que meio que ter que narrar um ser humano sem ter o uso de nenhuma expressão de dizer o que aconteceu mas deixar isso ser como um processo interno que você assiste. E também, a outra coisa de ter a estética de Frank Miller em mente, e todas essas coisas juntas me deixaram muito intrigado com esse mundo é que eles iriam fazer, e eu fiquei muito interessado em ser esse meio que muito incompreendido e enigmático personagem que não diz muito. Todas essas coisas me fizeram pensar: “Eu gostaria de fazer isso.”

E: Você foi de uma carreira cheia de ação com filmes como “Imortais,” cheio de efeitos loucos e coisas assim para fazer também várias produções de teatro agora e vários coisas menores, projetos pessoais e tal. Onde “Cursed” se encaixou para você? Você mudou o jeito que aborda coisas como “Cursed,” onde é uma mistura entre os personagens e os tipos de coisas como grandes efeitos visuais?

D: É, eu acho que quando eu comecei eu estava meio que espantando com quão grande a produção era para isso. Um espaço enorme de estúdio e a localização e o que eles construíram, então a escala de tudo era tão imensa. A meio que estética de tudo tinha sido pensando em tanto detalhe, quer dizer, meu figurino, por exemplo: tem coisas que você nem vê mas é tão detalhado. Do cordame, para o molde e os materiais usados, e também eu estava ciente de que este era um universo grande no qual eu estava entrando. Então dentro desse grande universo, torna-se importante fazer o personagem viver dentro desse mundo, sabe? E às vezes isso pode ser muito difícil. Você tem que realmente dar ao personagem sua história de origem, você tem que meio que lutar por seu personagem nesse mundo de algum jeito. Você tem que encontrar como ele se encaixa no quebra-cabeça dessa enorme produção. Você tem que abordar isso de uma forma um pouco diferente, sabe? E você tem que ser um pouco maior, e se render um pouquinho mais… Quer dizer, eu me lembro assistindo o primeiro dia com o Padre Carden interpretado por Peter Mullan… Sabe, aquela coisa toda, toda sua grandiosidade e eu me lembro de pensar: “Ok, certo, entramos mesmo nisso. Para equiparar isso temos que os dois entrar com tudo.” E tem um comprometimento ligado a isso, você tem que ter um comprometer a isso e […] no primeiro dia de filmagens eu pensei: “Ok, você tem que se comprometer a isso.” E isso pode estar totalmente errado mas você não pode fazer nada além de se comprometer.

E: Voltando no que você comentou antes sobre o detalhe do figurino, parecendo bem autêntico à época e também parece talvez um pouco difícil de se movimentar nele. Existiu alguma dificuldade em se movimentar em cenas de lutas coisas do tipo?

D: Certamente, era um louco, louco, figurino. Quer dizer, era lindo, e levava uma hora e meia para laçar. Minhas botas, e o capuz… e é deslumbrante e você coloca e pesa bastante. Porém tem algumas coisas que… sabe… ele fica molhado e você se mexe e então você fica molhado e lamacento e isso coloca uns 5,6 libras (em torno de 3 kg) a mais. Você é meio que jogado pela sua capa. E também você não consegue se equilibrar muito bem […] e você não consegue ver! Todas essas coisas juntas são meio que minhas desculpas para
ter vários erros de gravação e eu caindo com
essa coisa… bem, você não consegue enxergar ninguém. Realmente interfere no seu equilíbrio. As pessoas as vezes pisavam na minha capa e eu era puxado para trás ou minha espada se perdia e se enrolava na capa, sabe? Meu capuz… Eu era um ator um tanto perigoso de se trabalhar, ou eu acabava te acertando ou você me puxava para um lado por outro então a coisa toda… parece legal na câmera mas tem muitos erros de gravação onde eu não estou legal.

E: O Monge Choroso é um personagem tão sombrio, ele causa tanta carnificina no decorrer na primeira temporada. Teve alguma cena que você sentiu dificuldade em filmar de um ponto de vista emocional, moral, ou alguma coisa do tipo?

D: Não, eu acho que porque eu sabia — Eu tinha falado com Tom [Wheeler] sobre o que tinha acontecido antes então existia a noção que de que ele estava desprovido de qualquer empatia ou habilidade de se identificar. Então quando você está dentro dessa mentalidade, acho que qualquer coisa moralmente se torna aceitável, sabe? Porque não existe nenhum senso de — E para chegar lá deve ter havido uma quantidade insana de trauma, certo? Para ser completamente desassociado desse jeito. Então eu nunca achei nada particularmente moralmente difícil porque isso era o que eu pensava como sobrevivência. E aí até o final… O que eu acho interessante sobre o roteiro é: tem alguns limites que [o Monge Choroso] não vai passar. Tipo ele nunca vai matar uma criança, mas você vê porque. Você entende porque isso acontece. Porque em meio que uma união, existe uma noção meio Freudiana de sua própria criança ou infância ser o que ele está protegendo. Então existe algo legal sobre isso. Eu me interessei sobre o que aquela fala poderia ser. Ele conseguia matar qualquer coisa, mas uma criança que parecia com ele ou sei lá ele não conseguia fazer isso. Então tinha algo psicologicamente interessante sobre isso. E ao interpretar esses personagens tudo o que você precisar fazer para superar qualquer barreiras moral é entender como alguém ficaria daquele jeito.

E: Você sentiu que foi uma ambiente bastante colaborativo entre os diretores e os escritores? E como ator você conseguiu ter fala no processo criativo do seu personagem?

D: Sim, quero dizer, na verdade realmente foi. Eu acho que Tom [Wheeler] e Frank [Miller] criaram uma estrutura de como isso seria— e obviamente o livro… Eu tinha certas coisas que eu realmente queria para o personagem, sabe, eu tirei várias falas dele porque eu não queria que ele falasse tanto. Eu não achei que precisávamos delas para contar sua história. Frank foi ótimo sobre isso. Ele foi e concordou comigo e simplesmente as tirou! Isso foi muito legal. Eu senti que ele confiava em mim para saber que eu não estava tentando evitar aprender mais falas ou tentando diminuir minha responsabilidade mas que eu— Demorou um tempo para eu compreender quem [o Monge Choroso] era. Eu senti que eu conseguiria desenvolver isso. [Frank] e eu conversamos muito sobre quem ele era e como ele se expressava e acho que por isso ele me deixou decidir ir e fazer isso. Grande parte disso é que eu não falo muito e eu entro em vários momentos, então isso foi deixado para mim um pouco, foi uma boa responsabilidade.

E: Quando você está abordando um personagem como este onde existe um contexto para ele, existe um livro, — com arte nele até! — foi difícil? Olhando o fato de que tem desenhos de personagens, existe arte para se ter uma base… Como isso muda sua abordagem com as coisas, você sentiu obrigação de fazer tudo se parecer com a arte?

D: É, sabe… Isso vai soar mal… Mas na maior parte eu pego todas essas coisas e tento entender qual é a essência de tudo, sabe, e depois jogo tudo fora, porque… Você tem que ter — Eu espero, qualquer que seja a essência disso, de que em te escolher pro elenco ou em confiar em você, eles sabem que você a tem então como com qualquer outro personagem ele se torna seu porque você atua em certo ponto com esse personagem sendo seu. E dali permitir que ele seja o que for e que seja seu. E enfim, eu li o manuscrito, eu li parte dos roteiros… E na maior parte, na verdade, as ideias de Tom coincidiram com as minhas. Nós conversamos sobre um filme chamado Os Sete Samurais. É um filme de Kurosawa e tem uma cena no filme onde um cara está correndo na direção dele, do herói do filme, e ele só faz um movimento e mata o cara. É uma cena muito icônica e nos falamos de como essa era sua expressão (Monge Choroso), o jeito que ele era em sua alma. Eu gostei muito disso. Eu pude pegar [essa ideia] e seguir com ela. Então eu meio que entendia [o personagem] através de algumas das imagens das quais Tom e eu conversamos. Porém eu sua maior parte, sim, eu meio que peguei a história e segui com minha própria versão dela.

E: O Monge Choroso não é um personagem que estava na lenda original, ele é parte uma adição moderna a ela. Como você sente que esse personagem agrega a história em geral e como a audiência pode se identificar com a história?

D: Ele não é, obviamente, um personagem original, apesar de que como você descobre no final, sua origem tem algum envolvimento com a história original. Então tem um pouco de um desafio de trazer sua vida original para essa história. Mas foi bem legal poder interpretar um personagem que não tem pré concepções sobre ele. Você pode brincar um pouco com isso e quem assiste pode acreditar por um tempo. Então eu acho que é um personagem interessante e à medida que mais é revelado você entende porque ele foi parar nesse mundo também o que adiciona uma outra camada à ele e à narração que está acontecendo.

E: Então, sem nenhum spoiler, nós descobrimos algo no último episódio da temporada. Você sabia disso quando leu o script inicialmente ou foi algo que descobriu depois quando estava filmando?

D: Eu sabia. Eu sabia onde ele acabaria. Eu só sabia que eu tinha uma certa quantidade de cenas para chegar lá, sem muitas palavras e isso era o que sempre gostei muito sobre isso. Eu tenho que ir daqui até lá, e eu tenho talvez seis falas pra chegar lá e um monte de outras expressões. Então, foi um desafio mas eu realmente gostei disso. Eu gosto da surpresa, sabe, eu gosto de propagar uma ideia do que achamos de certos personagens e assim a revelação no final me deu uma direção para seguir.

E: Qual foi a cena mais desafiadora para seu personagem?

D: O episódio final foi muito desafiador apenas porque aparecem muitas coisas que surgem para ele então é um momento muito físico e em seguida um momento muito emocional que se juntam então o último episódio é desafiador porque é algo difícil você ser fisicamente atirado no chão e chegar em algum lugar para depois ainda por cima uma emotividade sair de alguém de alguém que está sujeito a chegar a esse ponto. Isso tira muito de alguém, você esteve emocionalmente e fisicamente segurando essa dor então nas últimas cenas você tem que mostrar uma noção de um vazamento de seu eu verdadeiro, o que é sempre desafiador e difícil de fazer. Então as últimas cenas, já estávamos filmando há uns dez meses ali então foi um dos últimos dias e era tipo: “Uau, dez meses que estamos trabalhando, que estamos passando por isso e guardando esse segredo, mantendo em segredo quem ele é e mantendo toda essa coisa debaixo dos panos e finalmente liberar isso no final… e é divertido. É muito divertido mas é duro.

E: Você pode me falar um pouco sobre a experiência trabalhar com a Netflix nisso, porque eles tem uma abordagem muito diferente com lançando tudo de uma vez e é um pouco diferente do que trabalhar com produções normais para TV, transmissão ou cinema.

D: É. Eu senti que a Netflix foi realmente ótima com isso, eles nos deram a plataforma e os recursos para contar essa história e também eu acho que eles fizeram um ótimo trabalho na divulgação e meio que colocando ótimos colaboradores juntos. Sabe, Tom [Wheeler], Frank [Miller], e também ótimos figurinistas… Sabe, a Netflix tem a habilidade de criar parcerias e colaborações incríveis. É uma das coisas incríveis de trabalhar com uma empresa como a Netflix: se algo não está funcionando eles podem trazer alguém que fez algo espetacular em sua outra série, sabe, e trazer essa pessoa para colaborar… Existe uma razão para eles saberem o que estão fazendo. Eles têm ótimos contatos e eles recursos o suficiente para poder promover artistas talentosos e colocarem eles juntos e eu acho que esse é o benefício de ter uma empresa enorme como essa construindo algo. Eles podem juntar pessoas e sabe, pagar pessoas para explorar suas mentes artísticas e meio que criar algo. Isso foi o que senti. Eu trabalhei com a Netflix em algumas coisas e eu sempre senti que eles são bem presentes mas distantes na medida certa e eles deixam as pessoas juntas e permitem que eles colaborem então isso é bem legal.

 

Tradução: Sara Vianna
Adaptação: Angélica Luiza
Fonte: Geek Vibes